Renato Casagrande (PSB-ES): “Quero legislação que garanta transparência
dos gastos do governo”
Apontado pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) como
um dos senadores mais atuantes na defesa da fiscalização do governo, o senador
Renato Casagrande (PSB-ES) quer o lançamento na Internet, em tempo real, de
todos os gastos do governo, como prevê projeto de lei complementar que há quatro
anos tramita no Congresso.
Na entrevista a seguir, Casagrande avalia os resultados do ciclo de debates
Controle Público - Instrumento de Cidadania, proposto por ele, anuncia que
apresentará projeto para definir o que é dado sigiloso e sugere a criação de uma
comissão mista de fiscalização e controle, nos moldes da que existe para o
Orçamento. O senador fala também de outra iniciativa sua: a comissão externa de
juristas, instalada no último dia 9, incumbida de elaborar o anteprojeto de
revisão do Código de Processo Penal.
Jornal do Senado - O que motivou o senhor a propor o ciclo de debates
sobre controle público como instrumento de cidadania? Foram as denúncias de
corrupção na administração pública cada vez mais freqüentes?
Renato Casagrande - O motivo foi esse. Não que a corrupção seja maior
agora do que era ontem. Ocorre que os órgãos de controle estão mais atuantes,
tanto os tradicionais quanto os novos instituídos pela Constituição de 1988,
como o Ministério Público. E a Polícia Federal também está mais atuante. O
resultado foi o aumento das denúncias. Isso fez com que transparecesse à
sociedade e a nós, parlamentares, a necessidade de aperfeiçoamento desses
órgãos. Além de uma investigação mais eficiente e a punição de quem comete atos
ilícitos, temos que pensar que o melhor trabalho é evitar a corrupção. Quanto
mais eficientes forem os órgãos de controle da administração pública, mais
prevenção teremos com relação ao uso do recurso público.
Jornal do Senado - Na década de 90, o senhor foi deputado estadual e depois
vice-governador do Espírito Santo, em um período crucial, quando o governo
estava crivado de denúncias de corrupção. Essa experiência explica sua
preocupação permanente com a área de controle e fiscalização?
Casagrande - Foi um período politicamente muito ruim para o estado, uma vez
que a criminalidade organizada estendeu seus tentáculos para as instituições -
governo do estado, Legislativo, Judiciário, tribunal de contas e assim por
diante. Essa parte negativa me mostrou como a coisa funciona. Ao mesmo tempo,
foi uma época de transição de inflação elevadíssima para estabilização
econômica, com o Plano Real. Havia, por exemplo, a correção mensal da folha do
funcionalismo e a reposição do resíduo no final do ano. Veio o plano de
estabilização, mas essa conquista do servidor foi mantida. O primeiro
aprendizado foi esse enfrentamento interno que o gestor precisa fazer para ter
responsabilidade na condução da administração pública. Foi necessário um debate
aberto com os servidores para que pudéssemos adequar a estrutura de gastos a
essa nova realidade. Assim, tanto o que não se deve fazer na administração
pública quanto o controle necessário para não deixar margem para que a
criminalidade se instale, porque ela se enraíza com velocidade enorme, foram,
sem dúvida, experiências que eu trouxe para dentro do Congresso. No meu mandato,
na Assembléia Legislativa, fizemos vários debates sobre ética, controle e
combate à corrupção. Isso acabou delineando o caminho que ia seguir na vida
pública.
Jornal do Senado - Quais foram as proposições mais importantes das cinco
mesas de debates?
Casagrande - Em primeiro lugar, a transparência. Para tanto, a tecnologia é
aliada importante. Ninguém pode argumentar que vive em município ou estado que
não tem tecnologia disponível. A rede mundial de computadores [Internet] chega a
todos os locais deste país. Esse instrumento permite que todos os órgãos
públicos, da administração direta e indireta, possam lançar em tempo real a sua
execução orçamentária, o preço do produto comprado e do serviço contratado. O
governo federal mantém o Portal da Transparência, que permite, tanto aos órgãos
de controle quanto à imprensa e à sociedade, fiscalizar os gastos federais e
compará-los. O primeiro item do controle é aquele feito diretamente pela
sociedade. Para que isso aconteça, é preciso ter legislação que obrigue o
lançamento em tempo real das despesas em todos os níveis da administração
pública.
Jornal do Senado - Existe um projeto de lei complementar já aprovado no
Senado, do ex-senador João Capiberibe, que trata dessa exigência. Ele é de 2004
e estacionou na Câmara [PLP 271/04]. O senhor pretende retomá-lo?
Casagrande - Por sugestão da Consultoria da Casa, fizemos algumas propostas
de alteração nesse projeto. Encaminhamos ao líder do PSB na Câmara e estamos na
expectativa de que aquela Casa vote esse projeto o mais rápido possível. Quando
retornar ao Senado, vamos pedir ao senador Garibaldi Alves [presidente da Casa]
que priorize sua votação. Uma das mudanças que propus assegura ao controle
externo de cada ente da Federação o acesso irrestrito a todos os dados da
administração direta necessários ao seu trabalho de controle. As informações têm
de ser fornecidas em meio digital.
Jornal do Senado - Como aparelhar os pequenos municípios para que tenham
condição de fazer isso?
Casagrande - O projeto prevê um período de adequação para atender as
exigências, no caso, quatro anos para os municípios com até cinqüenta mil
habitantes. Estamos sugerindo que o Congresso funcione como um elo importante,
de fato, de direito, do controle público. O Senado pode usar o Interlegis
[programa voltado ao desenvolvimento dos legislativos] para facilitar o uso não
só do Siga Brasil, sistema desenvolvido pela Consultoria de Orçamento da Casa e
pelo Prodasen que permite acompanhar a elaboração e a execução orçamentária da
União. Podemos formar multiplicadores nos municípios e nos estados. O Congresso
pode exercer de forma preventiva sua função de controle. A atuação não pode se
restringir às CPIs. Algumas delas viram palco de disputas políticas e acabam
tendo resultados frágeis e tímidos. Essa CPI dos Cartões Corporativos foi um
exemplo disso. Mais do que punir quem teve responsabilidade é fundamental se ter
um regulamento claro de como esses cartões devem ser usados, quem pode
recebê-los, o que é dado sigiloso e o que não é. Houve um descontrole, neste e
no governo passado, no uso desses cartões, bem como da conta tipo B, que é o
adiantamento em espécie.
Jornal do Senado - A regulamentação do que é dado sigiloso precisa de lei
específica?
Casagrande - Sem dúvida. Devo apresentar um projeto com essa finalidade. Os
dados não disponíveis para publicação precisam ser definidos em lei, para que
não tenhamos dúvida como tivemos agora, nos cartões corporativos, com os gastos
da Presidência [da República]. Outra proposta, que apresentei como emenda quando
entrei no Senado, é a criação de órgão de controle externo, a exemplo do
Conselho Nacional de Justiça, para os tribunais de contas, que acumularam grande
poder nos últimos anos. São órgãos auxiliares do Poder Legislativo, mas que
acabaram tendo vida própria. Acho fundamental que o Tribunal de Contas da União
e os tribunais de contas nos estados e nos municípios sofram fiscalização e
acompanhamento de membros e de lideranças da sociedade brasileira. Hoje eles
controlam todo mundo, mas não tem ninguém que exerça o controle sobre eles.
Jornal do Senado - O senhor também defende um controle maior sobre as
estatais?
Casagrande - As principais denúncias de corrupção estão relacionadas,
geralmente, à administração pública indireta. Essas empresas aprovam seu
orçamento no conselho de administração e têm um conselho fiscal que aprova as
contas da diretoria executiva. Acho que ainda é um controle muito precário.
Queremos que essas empresas lancem suas informações no Siafi [Sistema Integrado
da Administração Financeira, mantido pelo governo federal], como faz a
administração direta.
Jornal do Senado - Essa exigência valeria também para as empresas de capital
aberto?
Casagrande - Seria para todas elas, inclusive Petrobras. Todas as estatais,
na minha avaliação, precisam prestar conta dos seus gastos. Essa é uma proposta
de emenda à Constituição de minha autoria que já apresentei. O documento final
relativo ao ciclo de debates relacionou mais de cinqüenta medidas, algumas delas
já em tramitação no Congresso e que pretendemos agilizar. A fixação do limite de
endividamento da União é uma delas. Os estados e os municípios já têm esse teto.
Estamos propondo a formação de uma comissão mista de fiscalização e controle,
como se tem a do Orçamento. É fundamental também que consigamos avançar em uma
reforma política. O processo eleitoral costuma ser a ante-sala da corrupção.
Eleição tem custo elevado. E, em alguns casos, ocorre uma relação promíscua com
representantes do setor produtivo.
Jornal do Senado - Quando participou dos debates, o ministro Jorge Hage, da
CGU, pediu celeridade ao projeto em tramitação na Câmara que trata do conflito
de interesses públicos e privados (PL 7.528/06), que delimita até onde o
servidor pode ir no exercício de cargo federal e seus impedimentos posteriores.
O senhor compartilha da avaliação do ministro, que o considera fundamental para
o combate à corrupção?
Casagrande - O projeto está no rol das medidas propostas. Hoje não está
claro até onde o gestor pode chegar e às vezes há exercício de interesses
diversos. Precisamos ver se por lei há como inibir esse tipo de comportamento.
Também é preciso definir em lei os critérios e os meios de proteção aos
servidores que denunciam irregularidades, desperdício ou má gestão. Precisamos
ter regra geral para os casos de nepotismo e generalizar a imposição de
quarentena, que só existe para alguns órgãos. As agências reguladoras, por
exemplo, não têm quarentena.
Entre as conclusões do ciclo de debates, está a preponderância das emendas de
bancada sobre as individuais. Atualmente é o contrário: os parlamentares dão
mais importância às individuais, exatamente onde ocorre o maior volume de
irregularidades.
Esse é um debate que nós colocamos para provocar polêmica. As emendas de bancada
deveriam complementar o Orçamento da União para obras estruturantes em cada
estado. Toda bancada capitalizaria politicamente essa iniciativa, com a
sociedade percebendo a importância e o retorno desse investimento. Essas emendas
teriam prioridade na execução orçamentária. Mas teriam que mudar. Hoje, as
emendas de bancada de estados com poucos parlamentares acabam virando emendas
individuais.Outra mudança importante seria o repasse mais automático de recursos
federais para os municípios, ou uma redistribuição dos recursos fiscais dentro
de um novo pacto federativo. Muitos prefeitos deste país só conseguem fazer
investimento com as emendas individuais. Elas funcionam como uma compensação
pela má distribuição dos tributos, concentrados atualmente nas mãos do governo
federal. Portanto, é quase impossível acabarmos com as emendas individuais nessa
situação, pela importância que elas têm para os pequenos municípios.
Jornal do Senado - De um modo geral, o objetivo dessas medidas é dar
instrumentos à sociedade para que o cidadão possa ajudar no combate ao
desperdício e à corrupção. Mas como engajá-lo, já que a maioria dos brasileiros
nem sabe o que é a lei orçamentária do país?
Casagrande - O cidadão, que tem condições de entrar em um banco de dados e
fazer sua análise, pode fiscalizar individualmente. Também como indivíduo deve
exercer bem a sua cidadania na hora do voto. Esse é um debate até um pouco
desgastado. Mas ainda é um comportamento eficiente. Nós temos que ter
responsabilidade com nosso poder político individual. E temos que exercer
individualmente o poder que a gente tem em favor de uma coletividade. Além
disso, precisamos ajudar na organização de entidades da sociedade que tenham
esse papel de controle da administração pública. E ajudar as que já existem. Se
elas tiverem acesso a dados e legislação que não deixe margem de dúvida sobre o
exercício do gestor público, a possibilidade de êxito no seu trabalho aumenta. O
nível mais transparente da administração pública é o federal. Os estados e os
municípios ainda estão muito fechados.
Jornal do Senado - Na direção de aperfeiçoar as instituições, o senhor propôs
e obteve apoio do presidente Garibaldi Alves na criação de comissão externa de
juristas para rever o Código de Processo Penal do país. Quais foram as razões
dessa iniciativa?
Casagrande - O nosso código é muito antigo, data de 1941. Só isso já
evidencia a necessidade do seu aperfeiçoamento. Nesse período, ocorreram
mudanças pontuais que precisam ser consolidadas. A sociedade, principalmente as
camadas mais pobres do país, tem interesse direto nessa mudança. Debater o
sistema carcerário, penas alternativas, agilidade na tramitação dos processos,
eficiência na investigação do processo, tanto na parte do inquérito policial
quanto na parte da Justiça, são questões que têm a ver com o nosso dia-a-dia,
principalmente dos mais carentes.
Jornal do Senado - A criação de uma comissão externa foi uma idéia inovadora?
Casagrande - Apesar de previsto no Regimento [Interno], o Senado ainda não
havia aproveitado esse instrumento. Verificamos essa possibilidade de criar uma
comissão externa com a finalidade de elaborar um anteprojeto. Ela foi empossada
no dia 9 de julho, com nove membros, e terá cento e oitenta dias a contar de 1°
de agosto para concluir seu trabalho. Essa comissão terá a incumbência de fazer
a consolidação das alterações pontuais e de discutir outras modificações com a
sociedade e com especialistas na área. Quando se discute o código de forma
global, há condições de se pensar a legislação do início ao fim, de uma maneira
harmônica. Se conseguirmos concluir essa proposta até dezembro, poderemos votar
essa revisão em 2009. Seria um marco na história do Congresso Nacional.
Jornal do Senado - Como será a tramitação dessa proposta?
Casagrande - Vamos entregar o anteprojeto ao presidente do Senado. Ele deve
dar entrada como um projeto de código, que deverá ser examinado por uma comissão
especial temporária formada por onze senadores. Essa comissão externa de
juristas vai adiantar o trabalho da comissão especial, vai abreviar etapas.
Jornal do Senado - Não existe um grupo no âmbito da Comissão de Constituição,
Justiça e Cidadania, designado pelo senador Marco Maciel, com a mesma
finalidade? Não haverá um conflito?
Casagrande - Não vai haver conflito algum. Na hora que for montada essa
comissão especial para estudar o anteprojeto, os integrantes dessa comissão da
CCJ poderão compô-la e aproveitar todo o trabalho. Essa comissão externa
funcionará no período eleitoral, quando temos dificuldade em fazer tramitar
matérias. Também vai trabalhar no final do ano, quando a pauta fica
congestionada e temos dificuldade em votar as propostas. Vamos ganhar tempo. O
Brasil está muito atrasado na modernização do seu Código de Processo Penal.
Muitos países latinos já fizeram essa atualização.
Fonte: Cíntia Sasse/ Jornal do Senado